NUNCA MAIS - Artur Xexéo




Nunca mais
Nunca mais vi ninguém pegando jacaré. Nem caçando tatuí. Nunca mais vou ver o Rio Doce
Nunca mais vi ninguém fumando cachimbo. Nem o pai do Pimentinha nem o Saci-Pererê. Aliás, quase não vejo mais ninguém fumando qualquer coisa.
Nunca mais vi ninguém pegando jacaré. Nem caçando tatuí. Nem soltando pipa em forma de gaivota na praia.
Nunca mais vi ninguém acompanhando corrida de submarino no Arpoador.
Nunca mais passei um fax. Nem mandei telegrama. Nem recebi carta. Ultimamente, não tem ninguém nem deixando recado na minha secretária eletrônica. Nunca mais vi ninguém comprando um cartão-postal.
Nunca mais vi ninguém comendo presuntada. Nem coquetel de camarão. Nem sanduíche de queijo com banana.
Nunca mais vi uma tolha de Linholene, aquela que parecia de linho.
Nunca mais vi ninguém revelando um filme. Nem criando uma comunidade no Orkut. Nunca mais ouvi ninguém falar do Second Life.
Nunca mais vi o Cine Pirajá. Nem o Cine Jurema. Nunca mais vi o Super Bruni 70.
Nunca mais vi ninguém brincando de polícia e ladrão. Nem de pera, uva ou maçã. Nunca mais vi ninguém jogando bola de gude.
Nunca mais tomei Mirinda. Nem uísque sour. Nem vinho Liebfraumilch, que vinha numa garrafa azul.
Nunca mais vi um Simca Chambord. Nem um DKW Vemag. Nunca mais vi um Renault Dauphine.
Nunca mais vi ninguém comprando um disco. Nem ouvindo walkman. Nem escutando fita cassete.
Nunca mais vi o Tabuleiro da Baiana. Nem o Palácio Monroe. Nem o prédio do Cassino Atlântico.
Nunca mais pus BomBril na antena para melhorar a imagem. Nunca mais vi antena. Nem seletor de canais. Nem botão de horizontal e vertical.
Nunca mais vi ninguém brincando de telefone sem fio. Nem de “a palavra é...”. E nem de tesoura.
Nunca mais vi “O fino da bossa”. Nem o “Corte Rayol Show”.
Nunca mais ouvi alguém dizer “pena que a TV não seja a cores”. Ou que “depois do sol, quem ilumina seu lar é a Galeria Silvestre”. Ou que “ninguém vende mais barato que O Mundo das Louças”. Ou que “o Príncipe veste hoje o homem de amanhã”.
Nunca mais vi um show do João Gilberto.
Nunca mais vi uma cédula de votação.
Nunca mais vi ninguém usando perfume Lancaster. Nem pomada Minâncora.
Nunca mais ouvi a música ciclâmen.
Nunca mais vi ninguém consultando uma enciclopédia. Nem o Aurélio. Nem o Houaiss.
Nunca mais vi um Electra II da Varig. Nem táxi com duas portas e sem o banco do carona. Nunca mais vi um cinema drive-in.
Nunca mais vi uma miss com maiô Catalina.
Nunca mais vi um filme de Tarzan.
Nunca mais vi ninguém com calça rancheira. Nem com sandália japonesa. Nem com blusa BanLon.
Nunca mais vi o meu autógrafo do Alberto Sordi. Nem o da Maysa. Nunca mais vi ninguém pedindo autógrafo.
Nunca mais vi uma máquina de escrever. Nem uma cama Dragoflex. Nunca mais vi ninguém usando lenços Paramount. Aliás, quase ninguém mais usa lenço.
Nunca mais vi ninguém dançando o sa-sa-ruê. Nem ouvindo o jequibau. Nem ensaiando o let kiss.
Nunca mais vi o anúncio da hora certa durante o intervalo comercial. Nem a previsão do tempo. Nem a temperatura.
Nunca mais vi um cinejornal.
Nunca mais vi uma ficha de telefone. Nem um catálogo telefônico. Nunca mais ouvi sinal de discar.
Nunca mais vi ninguém usando creme dental Kolynos.
Nunca mais vi uma caneta-tinteiro. Nem um estojo de lápis. Nunca mais vi um compasso. Ou uma régua T. Nunca mais vi um esquadro.
Nunca mais vi alguém dando aula de caligrafia. Nem de trabalhos manuais. Nem de Educação Moral e Cívica. Nunca mais vi um caderno com o “Hino Nacional” estampado na contracapa.
Nunca mais vi um filme de arte. Nem uma comédia sofisticada. Nunca mais vi uma chanchada.
Nunca mais vi ninguém usando uma lanterna.
Nunca mais vi ninguém jogando pif-paf. Nem escopa. Nunca mais vi ninguém jogando crapô.
Nunca mais vi um faquir.
Nunca mais vi um show no Golden Room. Nunca mais fui ao Teatro Alaska. Nunca mais fui ao Tivoli Park.
Nunca mais vi um ximbolê. Nem alguém brincando de “ordem... seu lugar... sem rir... sem falar...”. Nunca mais vi ninguém pulando amarelinha.
Nunca mais vi minha carteirinha de sócio do Clube dos Amigos de Lassie. Nem minha bengala do Bat Masterson. Nem minha calça Calhambeque.
Nunca mais vi um cachorro pequinês.
Nunca mais ouvi ninguém dizendo que vai botar pra quebrar. Ou que entrou pelo cano. Ou que tô contigo e não abro.
Nunca mais vi ninguém dançando de rostinho colado.
Nunca mais voei pela Varig. Nem pela Cruzeiro. Nem pela Panair. Nem pela Vasp.
Nunca mais vi uma sirigaita. Nunca mais levei um safanão. Nunca mais vi ninguém molhando o pão no café.
Nunca mais vou ver o Rio Doce.



Leia mais sobre esse assunto em 
http://oglobo.globo.com/cultura/nunca-mais-18109286#ixzz3sSKyQKeI
© 1996 - 2015. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. 

Comentários

Postagens mais visitadas